quinta-feira, setembro 23, 2004


A favor dos ambidextros



Qualquer pequeno périplo pela blogosfera revela que os rótulos "de esquerda" e "de direita" estão bem vivos e estupidamente frescos no admirável mundo novo.

Desengane-se quem - como eu - pensava que o uso, em Portugal, de tal dicotomia, era indício de que o respectivo utilizador estava um pedaço caduco, ou seja, havia dobrado o cabo dos cinquenta com fortes recidivas da "longa noite" ou, no mínimo, do PREC, independentemente do lado da barricada.

Um pouco como aqueles tipos grisalhos, muito bem polidos e conservados, tão cheios de charme que ninguém presume ser filha a loirinha que exibem pelo braço... até ao dia em que, incautos, nos surpreendem com uma memória fossilizada, estilo Benfica-campeão europeu, por mim, texto onde a famigerada dicotomia desse à praia, levava-me sempre a concluir estarmos perante um émulo cassetiano de Carvalhas ou um balofo Kauzazinho de algibeira.


Mas a verdade é que o ser "de direita" ou "de esquerda" está muito vivo e muito activo na ontologia nacional. E parte-se da concepção teórica, podre de madureza, que postula serem aqueles que perfilham posições liberais sobre a economia "direitistas" e os que defendem a intervenção social do Estado "esquerdistas", para extrapolar um posicionamento unívoco sobre as mais diferentes realidades.

Posicionamento que chega à idiotia de ser a base de conhecimento de todas as coisas e de sustento de todas as opiniões.
- Que penso sobre o lixo tóxico, poluente assassino resultante de algumas indústrias altamente lucrativas? Ora, eu sou de direita e, portanto, não há maus lucros. De certeza que encontro por aí uns estudos a provar que o urânio enriquecido previne a calvície ou que o plutónio 238 dá saúde e faz crescer.
- Que penso dos subsídios sociais equivalentes a três salários mínimos nacionais aos pobrezinhos-que-têm-muitos-filhinhos-coitadinhos e estão desempregados como profissão adquirida entre duas estadias num qualquer estabelecimento prisional? Ora, eu sou de esquerda e, portanto, não há maus subsídios. De certeza que os chulos também têm coração e o criminoso é sempre, consabidamente, apenas uma vítima da sociedade, que o deve indemnizar.

E isto aplica-se tanto à interrupção voluntária da gravidez, à invasão do Iraque, à caça à raposa, às gaivotas do Tejo e às canoas que andam perdidas, como à inimputabilidade dos funcionários públicos, aos despedimentos com justa causa, aos aumentos das rendas de casa, ao coelhinho, ao pai natal e ao circo.

Por isso vos digo: vivam os ambidextros! Aqueles que são a favor da despenalização da interrupção voluntária da gravidez e, ao mesmo tempo, acreditam que o nariz de Rumsfeld não cresceu nem um milímetro nos últimos dois anos. Bem como os que são a favor da amputação de meia função pública e, ao mesmo tempo, acreditam que a Maçonaria é uma espécie de clube dos poetas mortos, com avental.

A todos os que escapam aos rótulos; os que pensam para além das etiquetas na testa; os que usam o letreiro, mas dispensam as palas; os que envergam o hábito e não são monges; os que lêem pela cartilha, mas seguem o coração... venham de lá essas mãos, amigos ambidextros, os meus cumprimentos.